Século XXI


Belenzinho

CICLOS DA NICOLAU

1987, 1988...e por aí vão os anos. Último dia de aula, cada um em seu colégio, contando os segundos para terminar aquela aula que parecia eterna. Toca o sino. Não víamos a hora de chegar em casa, largar a mochila no sofá e sair pra rua. O mundo girava, Sarney, Bush, Petróleo, Cruzeiro, Cruzado. Pra nós o que interessava era a bola. Pequena, grande, surrada, nova, velha. Enquanto a orbe transitava em torno do sol, nós transitávamos em torno da rua e deles, dos amigos que berravam em nossa porta à nossa procura. Tudo, mas tudo mesmo era importante e descartável ao mesmo tempo. Furou a bola, foi parar no telhado? Bora procurar o que fazer. Bicicleta, kit Vipal, bomba manual ou do posto. No taco, valia tudo, desde a lata de óleo do posto até palito de sorvete. Cansados da maratona, era hora do videogame, jogo da vida, war, brincadeira do copo ou um filminho pornô alugado na clandestinidade. Tinha também os Faces da Morte, Hora do Pesadelo, Sexta Feira 13. O tempo passava muito rápido, o dia voava. Quando a gente via, já eram onze da noite. Hora de dormir. Às vezes o Freddy Krueger ou o Jason não queriam deixar, mas a gente estava tão acabado que dormia assim mesmo. Banho e cama. Antes dava uma olhadinha no joelho ou no cotovelo ralado, lotado de merthiolate (que manchava tudo, mas não ardia nada). Pai, mãe, avó, avô, todos estavam lá, mas a gente via mesmo quando ia dormir ou quando era arrastado no domingo pra almoçar na casa de algum deles. Mas tirando isso, o barato era contínuo. Moleque que é moleque faz molecagem, sem sombra de dúvidas. Amarrar o rabo do gato, soltar morteiro no meio da rua, concurso de arroto, de peidos. Nada que ferisse a honra alheia, mas era bom demais. Também era bacana pegar o 172 C pra ir no Center Norte e o 172 N pra voltar. Tudo com o dinheiro contado. Pra muitos essa galera já era. Pra mim ela ainda é. Nosso bairro tem dessas coisas, meio cidade do interior, onde ninguém se desliga de verdade. Até na noite de natal a gente se encontrava, mostrava os presentes, ficava brincando quando deixavam, claro. Hoje, um quarto de século depois, estou de volta ao natal. Não fico mais na rua, e nem eles. A gente guarda um pouco da infância no videogame empoeirado na prateleira, vendo fotos antigas ou rindo um do outro quando nos encontramos. Nós crescemos, aparecemos e nos preocupamos com aquilo que os nossos pais se preocupavam. Mas sinto de novo Mas não abandona o navio. São Paulo continua a mesma nestas férias escolares. Continua com as crianças pela rua, empinando pipa, jogando bola, taco e voltando pra casa com o joelho estourado. Os gritos delas vão até tarde, pais chamando pra jantar, pra dormir. A gente liga o rádio...Imigrantes cheia, demora pra por o pé na areia. Até que chega fevereiro e tudo começa de novo, a gente relaxa. Quer dizer...nem tanto, porque o trânsito continua e a gente tem que colocar as crianças pra dormir cedo, não pode mais jogar bola na rua, tem que acompanhar a lição de casa, reunião de pais...rsrsrs...E os ciclos se repetem, meu pai fez isto, eu estou fazendo...cheiro de natal no ar. A segunda feira não tem o mesmo jeitão de sempre, o trabalho tá diferente, as pessoas estão com o espírito mais relaxado. São Paulo se prepara pra mais uma temporada de chuvas, alagamentos, engarrafamentos monstruosos. É epoca de quem está em casa passar algumas horas vendo o Datena xingando os políticos e informando sobre as enchentes. Quem não pode, chora, sofre dentro do carro....Mas não abandona o navio. Vejo hoje que São Paulo continua a mesma, até mesmo nas férias escolares. Continua com as crianças pela rua, empinando pipa, jogando bola, taco e voltando pra casa com o joelho estourado. Os gritos deles vão até tarde, mãe chamando pra jantar, pra dormir. A gente ligao  rádio...Imigrantes cheia, vai demorar pra por o pé na areia. Até que chega fevereiro e tudo começa de novo e a gente relaxa. Quer dizer...nem tanto, porque o trânsito continua e a gente tem que colocar as crianças pra dormir cedo, tem que acompanhar a lição de casa, reunião de pais...E os ciclos se repetem, vivemos diferente para que nossos filhos possam viver igual ou melhor do que nós. Se for igual, ótimo, se for melhor...difícil, hein? 2007, 2008...e por aí vão os anos... Mas não abandona o navio. São Paulo continua a mesma nestas férias escolares. Continua com as crianças pela rua, empinando pipa, jogando bola, taco e voltando pra casa com o joelho estourado. Os gritos delas vão até tarde, pais chamando pra jantar, pra dormir. A gente liga o rádio...Imigrantes cheia, demora pra por o pé na areia. Até que chega fevereiro e tudo começa de novo, a gente relaxa. Quer dizer...nem tanto, porque o trânsito continua e a gente tem que colocar as crianças pra dormir cedo, não pode mais jogar bola na rua, tem que acompanhar a lição de casa, reunião de pais...rsrsrs...E os ciclos se repetem, meu pai fez isto, eu estou fazendo...Mas não abandona o navio. São Paulo continua a mesma nestas férias escolares. Continua com as crianças pela rua, empinando pipa, jogando bola, taco e voltando pra casa com o joelho estourado. Os gritos delas vão até tarde, pais chamando pra jantar, pra dormir. A gente liga o rádio...Imigrantes cheia, demora pra por o pé na areia. Até que chega fevereiro e tudo começa de novo, a gente relaxa. Quer dizer...nem tanto, porque o trânsito continua e a gente tem que colocar as crianças pra dormir cedo, não pode mais jogar bola na rua, tem que acompanhar a lição de casa, reunião de pais...rsrsrs...E os ciclos se repetem, meu pai fez isto, eu estou fazendo...



 Escrito por Dr. Tércio Felippe M. Bamonte às 14h27 [] [envie esta mensagem] []




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